terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Zeca

Penso que eu tinha por volta dos oito anos quando conheci o Zeca. Ele era bolsista na escola e tinha um jeito diferente de quem levava a vida como uma grande brincadeira. Ficamos amigos por isso, me fascinava como nele tudo era mais espontâneo e enquanto eu pensava demais diante da vida, ele flutuava sem direção. Sempre me perguntava o quê exatamente causava essa ligação tão forte, sendo nós dois tão diferentes.

Cheguei a acreditar que o Zeca não tinha mãe. Risada solta, chinelo no pé, respostas francas. Como se a vida fosse mesmo dele, quase uma afronta. Passou a ser um gosto voluntário assistir ao Zeca como se fosse filme. Olhar o nascer de um desejo bruto e o desenrolar de sua trama. Um protagonista em sua própria narrativa, mas que absurdo. E para meu espanto, aquele menino passou a morar dentro de mim. Era como se, nas minhas entranhas, residisse o meu impossível.

Minha mãe não permitiu tamanha autonomia. Não me criou como ele. Mas tudo bem, eu não queria me chamar José Carlos mesmo. E ele é menino. Eu sou menina, igual a minha mãe e igual à mãe do Zeca também. Ele poderia nascer de mim. Eu nunca que poderia nascer dele.


Nota: Em parceria com Lina Cavalcante - Mais dela em debailarina.blogspot.com

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Ao³



O meu vazio não me preenche mais. E sinceramente não entendo essa capacidade do mundo de ficar sempre tão cheio. Mesmo que de nada. Eu só quero um motivo, uma vontade, mas não entendo porque existe essa necessidade - que não crio e nem controlo.

Ainda tenho que vê-la assim tão suave. Até consegue assobiar. O que é o assobio, meu Deus, se não uma afronta? Logo pra mim, que nunca aprendi. Também não me lembro de ter tentado. Não conseguiria mesmo. A desistência precoce, me resumo a isso?

Tenho o vício de desenhar cubos. O tempo todo. Certamente não são perfeitos. Não soam bem aos ouvidos de um ilustrador ou de um arquiteto. Mas continuo desenhando. É tão fácil. Nem assim me livro da sombra que desenha traços mais elaborados. Por que não deixar a caneta escorrer? Escorre ela, escorro eu, quem sabe, escorre a vida.

Nota 1: Mesa de bar pé sujo mesmo. Cerveja barata, linguiça dois reais. Ela pega o papel e sugere "vai, escreve uma frase". Um desabafo meu, um pensamento dela, uma dor minha, um comentário dela, uma busca minha, o apoio dela... O texto.

Nota 2: Ela sempre pede porção de coração - Mais dela em www.debailarina.blogspot.com

sábado, 8 de agosto de 2009

Eclipse

É quando um deixa de existir.

domingo, 12 de julho de 2009

Para onde?

Onde será que eu tropecei?
Que caminho foi esse que eu andei?
Onde deixei escapar minha coragem?
A esperança reside no medo.
Ando em passos curtos sem vontade de chegar.
Onde será que eu deixei?
E tu, covardia, onde foi que te achei?
Me veio aconchegante,
Em tuas águas mergulhei.
Agora só me sustenta a vaidade.
E quando chega a noite
Me escondo em liberdade.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Coma

Era uma mancha roxa em sua perna. Uma dor pequena, mas dor.
Andava mancando pelas pancadas que a vida oferecia fazendo sempre questão de aceitar. Ele nunca disse não. Quando tentava vinha ela novamente e roubava a sua voz.
Mais um roxo, na garganta.
Enquanto gaguejava o discurso e engasgava o copo de café, pensava no alívio que um dia havia de chegar. Mas lá estava ela lhe roubando o direito de pensar.
Usava seus pincéis na parede e cantava emocionado. Ela mostrava o traço torto e lhe tirava o prazer de chorar. Olhava pra cachaça e ansiava mergulhar. Ela servia o seu leite e ele em vida-morta nem podia se afogar.
E lá estava ele com seu corpo à pintar.

O Lobo e a Rosa

Era o Lobo pensando em como seria se não tivesse acontecido. Andava por entre flores ao chão e nuvens ao céu. Em meio a seu calmo e curioso caminhar, surge em sua frente um lindo Girassol. Linda e frágil, brilhava intensamente sem a companhia das sombras que pintavam o percurso do Lobo. Ele a desejava mas não chegava muito perto, não se permitia. Era o Lobo pensando em como será se o Sol mais uma vez decidir não voltar. E as nuvens continuam no céu esperando o luto terminar.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ejaculação precoce

Igor é um homem apaixonado por sua mulher. Romântico, adora agradá-la.
Ele é calmo, carinhoso, sensato, mas também se deixa levar pelas emoções e às vezes faz dessas loucuras que chamamos quando gastamos o que não podemos.

Recém casado, estava completando 6 meses de união. Igor resolveu, então, fazer uma surpresa. E só de ter a idéia a calma virou ansiedade, euforia, excitação. Pensou em como ela ficaria admirada, em fazer um ambiente sugestivo, no que ela gostaria de comer e beber.

Saiu do trabalho e comprou sushis. Ele olhava e escolhia com muita ansiedade, já imaginando a felicidade dela ao ver a surpresa que ele preparava. Abria um sorriso só de pensar no dela, parecia até uma criança. Comprou um belo vinho pensando na noite romântica e, ao chegar em casa, preparou uma mesa linda à luz de velas.

Ele escuta os passos na escada. É ela que está chegando, imagina. O coração acelera, o sorriso ansioso estampa o rosto. A chave gira a maçaneta, a porta vai abrindo aos poucos e ele sente um frio na barriga e um calafrio repentino.

Ela entra, abre um meio sorriso e pergunta o que está acontecendo. Ele dá os parabéns pelos 6 meses de casamento, explicando a situação. Ela agradece, diz que ele é um marido lindo. Coloca a bolsa no sofá e vai para o quarto dizendo estar cansada do trabalho.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Interseção

Família grande. Irmãos de sangue, de casa, quarto, de camas e até de roupas. Abria a porta para tentar fugir e encontrava uma divisão ainda maior. Sem intimidade alguma com os números, Otávio subtraia querendo somar e dividia querendo multiplicar.

Pensou em como seria bom conseguir comer apenas um biscoito do pacote, em como acha bonito o sol se pondo e em como a vontade de guardar um boné, que nem cabe em sua cabeça, é uma necessidade.

Otávio sofre. Sabe a resposta mas erra o cálculo – de forma calculada.

Ouve o mar e sorri. Nem se preocupa em contar as ondas, apenas observa e sente uma felicidade que não sabe explicar de onde. É forte como o mar e ele se deixa levar pela correnteza.

Um conjunto, oito divisões e nenhuma solução. [Silêncio]

Um estojo colorido e infinitas canetas de cores diferentes. Otávio pinta bem a felicidade ao ouvir Vinícius, ao aprender literatura e ao ver um sorriso ingênuo de criança. Essas coisas sem moeda de troca. Otávio gosta mesmo é disso.

Otávio come brigadeiros escondido no banheiro, mas paga R$5,00 para o guardador de carros que cobra R$1,00. Exige um cobertor só dele, mas cede a vez no banheiro do bar para um mais apressado. Otávio conta cada cerveja que tomou na hora de pagar a conta, mas sai de casa só para levar um coco à namorada para satisfazer o seu desejo. Não empresta dinheiro mesmo tendo na carteira.

Entra no quarto de sua avó – que parece ter todas as respostas – e pede implorando:
– Me ensina matemática?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Deserto

Andando pelo deserto numa estrada em solidão que parece não ter fim, a sede é cada vez mais desesperadora. Água, muita água. Sonho com uma saída ao lado onde haja uma janela aberta e a chuva alivie toda minha garganta arranhada e seca. Ao meu redor não há vida. A não ser umas cobras traiçoeiras que rastejam desapercebidas esperando o momento certo para injetar seu veneno, e alguns cactos inocentes que não sabem o porquê de seus espinhos.
Não lembro mais da minha varanda florida nem das tardes que regava e conversava com minhas plantas. Talvez por isso minhas pegadas somem a cada passo. Acelero a caminhada com minha camisa amarrada no rosto, uma garrafa vazia e os pés calejados, numa busca interminável por sombra e água fresca. A camisa protege e me esconde, a garrafa é sempre uma esperança que acaba quando abro a tampa e os pés são as marcas dessa busca incessante cheias de angústia e dor.
Caio desfalecido. O vento enche meu rosto de areia, o corpo exposto ao sol e a garganta clamam por água. Estou desacordado sem saber quando acordar ou, até mesmo, se vou. Ah, mas como está gostoso aqui. Um alívio calculado. Não sinto sede, calor, sofrimento ou angústia. Não quero mais cactos e cobras, nem janelas e chuva. Um grito vazio que ecoa sem destino.
Acordo e o mar não molha mais os meus pés. Alguns segundos passam enquanto abro os olhos lentamente até sentir o sol cada vez mais intenso. O desespero aumenta e minha busca agora é por alguma cobra que me deseje ou algum cacto para me jogar em seus macios e aconchegantes espinhos.
O desespero me leva ao primeiro passo. Caminho de cabeça baixa, coluna corcunda e as pernas fracas já não me sustentam. O cacto não me abraça, mas uma cobra descansa ao seu lado. Aproximo, peço um gole do seu doce veneno e ela se afasta. Perde a vontade ao sentir que o meu desejo por ela é maior do que o dela por mim. Caio novamente. Choro em agonia puxando os cabelos como um viciado em abstinência implorando uma dose. Exausto, durmo e a vontade de permanecer no escuro não finda. Uma nuvem parada no céu me protege com sua sombra, o vento frio me conforta e hoje só consigo pensar em como seria bom nunca mais acordar.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Inércia

Em meio a tantas palavras tragadas e cuspidas, a roupa e o corpo impregnam-se por completo. A fumaça tem forma, cor, cheiro, fuga e mentira. Não há escolha, gostando ou não ela se faz sempre presente. Respiração, pele, ardor nos olhos, suor, alívio e prisão. Tudo isso a veste de desencontro, e sem quebrar as palavras nunca chega a um ponto final.
Mergulha na cama todas as noites, chove com o cabelo bagunçado e tira a roupa na tentativa de ficar nua. Passa o cabelo sobre o ombro, olha de canto e acende um cigarro. A fumaça tem forma, cor, cheiro...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O vocalista

Sem saber o porquê comecei essa bulimia. Talvez saiba e preferi fingir que não. Vontade de vomitar me faz saber que não estou vazio, sinto sua mão encostando na minha e, com o toque, a segurança. A gargalhada cessa e leva consigo o desespero.
Todos os pássaros enjaulados, todos os peixes em aquários, a cadeira me dá as costas e giro desesperadamente olhando para todos os lados sem nada enxergar.
Os outros riram. Riram porque escolhi morar no outro lado do rio. O cigarro que eu nem gosto, rasga a minha garganta e tem sido meu melhor amigo. Não! Não fale nada, só fale se for para melhorar o silêncio. Entro no banheiro e me fecho. Me olho no espelho e pego o shampoo para tirar todas as sujeiras impregnadas em meu corpo.
Pego um copo de cerveja, sempre vazio e sem colarinho que é pra esquentar logo.
- Vamos embora?
E eu me calei pensando: Só fale se for para melhorar o silêncio.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Óbito

O relógio não marca compromissos
O telefone não tem voz
Os óculos não me escondem mais
E a boca não estica

O espelho não decifra
O remédio não cura
O travesseiro não salva
E no teatro não há cena

A faca não corta mais
O olho já não chora
A agonia não dói
E o amor não jorra

A música não acalma
A praia não molha os pés
O céu não tem cor
E o livro não tem poesia

A porta já não abre
A tela não tem arte
O pincel não desespera
Os olhos não abrem mais

E a distância existe
porque compartilhamos a mesma dor

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Dissonante

Ontem tive um sonho que não quero lembrar. Não quero porque me faz mal, então melhor deixar guardado mesmo. É que algumas coisas não consigo entender. Como só pintar quando estou triste, melancólico. Talvez se acordasse com mais quadros no meu quarto falaria das coisas boas também.

Mas é que ela sabia, sabia que ia me machucar. Eu não queria escutar aquilo e ela bem sabia que ia desafinar meu violão, e mesmo assim foi lá e amassou o dia. O papel pode ser amassado, jogado no lixo e reciclado. O dia, não. E fico amassado lutando para voltar à forma inicial, mas parece uma dor de dente que não sai até o dia acabar. Melhor mesmo é dormir e esquecer a tal dor.

A cada novo samba me vem uma angústia de não conseguir tocar mais meu violão. Talvez por isso eu não consiga falar de coisas boas.

Ela percebeu a dor que me trouxe ao ver meus dedos errando as cordas. Comprou um perfume novo e me esperou depois do trabalho. Abri a porta e nem consegui fechar a cortina. Quando menos percebi já estava deitado na cama cheio de amor e carícias. Ah, que lindas notas tem este samba.

Mas a felicidade parece sempre existir e por isso perde força, parece irreal, cotidiano, normal. As pessoas escutam com desdém e acabam não dando atenção. Melhor falar das tristezas mesmo, porque estas são escutadas e ganham corpo. As pessoas dividem e sentem. É que dor todo mundo tem.

Eu não consigo entender como ela pôde arrancar uma das minhas cordas. Eu tento acertar a nota, mas sem uma corda não tem música. E música é poesia.

Eu tento arrumar as coisas na minha cabeça, mas quando as tiro da gaveta ficam ainda mais bagunçadas, espalhadas na cama. E eu continuo sem uma das cordas.

Ela decidiu sambar. Dançou toda a noite e me fez tocar. Até trouxe um violão novo de 12 cordas que eu tanto queria. Lindo e curvas tão perfeitas que parecia ter vida. Toquei samba de uma maneira nova e excitante. Impossível tocar violão sem desejo. Tão forte e tão grande que consegui fazer música sem encostar meus dedos em uma corda sequer. Foi uma noite linda e inesquecível.

Acordei e a tal dor de dente que sempre saía, hoje me deu bom dia. É que eu queria mesmo era a corda do meu violão.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Jantar em família

A casa está vazia, lotada.
Eu fico calada e só, mas o jantar é de festa.
As pessoas na sala conversam, e eu procuro minha casa.
A mãe chama pela filha e oferece carinho. Ela pega o copo e dá um gole na cerveja.

O irmão anda com a boca cheia e o prato vazio. A tia com a boca vazia e o prato cheio.
A irmã que não se vê e deita no sofá esperando o dia acabar.
A televisão ligada sem dizer nada. O cachorro esconde algumas soluções e lambe a pata.
O pai mais uma vez não está. A avó que de longe enxerga tudo, chora sorrindo.

Ela continua andando pela casa visitando cada cômodo.
Leva consigo a chave do armário sempre trancado.
O abraço que não vem, o beijo que não vai.
A conversa que não começa, o pedido que não termina.

A toalha jogada na cama. Roupa suja no chão. A xícara de café na estante.
O espelho embaçado, a janela fechada, o chinelo na gaveta, o sapato apertado.
Teto quebrado, paredes cinza, banheiro sem porta, todos no mesmo quarto. (Socorro!)
Ela nunca saiu de casa.

A mãe acolhe e encolhe. A filha já não tem braços e pernas. E a saída está sempre fechada.
O jantar na mesa, a festa continua, as pessoas riem, conversam, se divertem.
Ela está lá e escreve só. A página continua em branco.
A chave sempre com ela. Mas nunca acha um que aceite suas roupas ou que faça as perguntas certas. Por não ter onde guardá-las, nunca consegue ficar nua.

A varanda está iluminada. Música, cigarros e cerveja.
Perambula em meio à selva despretensiosa. Sozinha.
O jantar continua na mesa e eu - com fome - não consigo me servir.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Rubra Erupção

Por ter direito à TPM
Por anteceder o sofrer
Sem ter que justificar
Por ter o direito de chorar
E permitir ao menos uma vez
Um dia para só em mim pensar

Menstruo por ser dor
Sangue em veia
Distúrbio emocional
Tristeza (in)definida
Abatimento (ir)racional

Tormento
Pesar
Mágoa

À flor da pele
Homem também menstrua